• 16
    mar
    Jovens do #Movimentos trocam experiências com autor de best-seller sobre guerra às drogas

    Integrantes do #Movimentos em reunião com o escritor Johann Hari: debates vão servir para escritor adicionar capítulo sobre Brasil em sua obra traduzida para o português (Foto: Raull Santiago)

    Doze jovens de diferentes favelas, entre elas Maré, Alemão e Jacarezinho, se reuniram nesta terça-feira, dia 14, com o escritor inglês Johann Hari, autor do best-seller “Chasing the Scream – The First and Last Days of the War On Drugs” (Perseguindo o Grito – Os Primeiros e Últimos Dias da Guerra às Drogas). O livro é uma análise crítica sobre a guerra às drogas nos últimos 100 anos. Este foi mais um encontro do Projeto #Movimentos, iniciativa que articula jovens de favelas e pesquisadores em ações dedicadas a promover o debate sobre o tema nas favelas e a partir da perspectiva de seus moradores.

    Na reunião, Johann disse que a versão em português do seu livro, que deve ser lançada no ano que vem, terá um capítulo adicional sobre o Brasil. No encontro com os integrantes do #Movimentos, os jovens relataram o impacto das políticas de repressão às drogas sobre as suas vidas e apontaram que essa estratégia serve ao controle social da população das favelas.

    O midiativista Raull Santiago, do Coletivo Papo Reto e integrante do #Movimentos, relata que Johann esteve no Complexo do Alemão um dia antes do encontro.

    “No Complexo do Alemão, (Johann Hari) vivenciou a realidade intensa do que significa a guerra às drogas, inclusive se vendo preso em meio a uma situação de tiroteio e tendo que mudar diversas vezes o roteiro inicial da visita na favela que tínhamos organizado, por conta dos confrontos. No final, circulamos por várias áreas, inclusive com um momento importante para o Johann onde ele conversou por bastante tempo com uma mãe de vítima que teve o filho assassinado pela violência da guerra às drogas”, contou.

    Sobre o #Movimentos

    Criado em maio do ano passado pelo CESeC, o projeto #Movimentos reúne jovens de várias favelas do Rio de Janeiro, de Salvador e de São Paulo para discutir e pensar a política de drogas. Em um espaço dinâmico de trocas e aprendizados, surgem ideias e propostas de como levar o debate para dentro das favelas.

     

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  • 03
    nov
    LIVRO DO CESEC DISCUTE A DEMOCRACIA QUE FAZ FALTA NA SEGURANÇA PÚBLICA

    As coordenadoras do CESeC e o reitor Candido Mendes

    Mais de 250 pessoas estiveram no lançamento do livro “Polícia, justiça e drogas: como anda nossa democracia?”, realizado pelo CESeC, na noite de terça-feira, 25 de outubro, no espaço Nex. Pesquisadores de várias áreas, policiais, jornalistas, ativistas, juízes, promotores, líderes comunitários, advogados, políticos, artistas foram à comemoração, que também marcou os 16 anos do  CESeC e o lançamento do novo site do CESeC.

    A convite do CESeC, o  jornalista Fernando Molica conversou com vários dos presentes sobre os temas discutidos no livro. Leia abaixo o texto. As fotos são de Claudia Ferreira.

     

    Por Fernando Molica*

    Precisa, a saudável provocação expressa na pergunta que dá título ao novo livro organizado por pesquisadoras do Cesec tem o poder de gerar múltiplas e não excludentes respostas. O questionamento traz para o nosso cotidiano, para a vida como ela é, a discussão sobre um tema – democracia – que, na política nacional, costuma ser citado apenas como cereja de bolo de discursos vazios, conceito que chega a ser usado até para justificar rasteiras no processo democrático.

    “Polícia, justiça e drogas: como anda nossa democracia?”, pergunta o livro organizado por Barbara Mourão, Julita Lemgruber, Leonarda Musumeci e Silvia Ramos.  Mais do que respostas, as co-autoras e diversos convidados para o lançamento da coletânea de artigos, fazem diagnósticos, lamentam oportunidades perdidas, comemoram avanços e apontam possibilidades de saída. E, sem floreios, avisam que nossa democracia inspira muitos cuidados.

    Julita Lemgruber e o Coronel Íbis

    Julita Lemgruber e o Coronel Íbis

     

    Ex-comandante da PM estadual, o coronel da reserva Íbis Silva Pereira diz que a democracia vai mal. “Este estado democrático de direito, estruturado na dignidade da pessoa humana, é incompatível com o número de 60 mil homicídios dolosos por ano, boa parte deles cometidos nessa insana guerra contra as drogas”, enfatiza. Para ele, a sociedade não se libertou do passado colonial e escravocrata, o que permite a permanência desta lógica cruel – entre os mortos pela violência, 80% são negros.

    Ática Roque, diretor-executivo da Anistia Internacional no Brasil,  afirma que o questionamento feito pelo livro aponta para um déficit democrático que vem desde a ditadura militar. “Na passagem para a democracia, não conseguimos colocar a agenda da segurança pública no centro da discussão”, avalia. Para ele, em todo esse período, a segurança continuou a ser tratada como uma questão de polícia, não como algo que deveria fazer parte de uma política de Estado.

    Átila Roque e Nilcea Freire

    Átila Roque, da Anistia Internacional Brasil, e a pesquisadora Nilcea Freire

     

    A cientista social Silvia Ramos, que assina no livro uma avaliação sobre políticas de segurança pública aplicadas no Estado do Rio nos últimos 30 anos, diz que há uma relação direta entre essas políticas e o resultado que se vê nas ruas. De acordo com ela, qualquer mudança muda o cenário de forma imediata. Cita como exemplo a criação, no governo Marcello Alencar (1995-1999 ), da chamada gratificação faroeste, que recompensava policiais que participassem de confrontos: a taxa de homicídios no estado pulou para 62 por grupo de cem mil habitantes. Já com a implantação das UPPs, a taxa despencou, na cidade do Rio, para pouco mais de 18 homicídios por cem mil habitantes (no estado, está em cerca de 29 por cem mil, índice semelhante ao do país).

    Silvia frisa um grande problema: diferentemente do que ocorre em outras áreas da administração, como educação e saúde, a política de segurança pode ser mudada com uma simples troca de comandantes.

    Ameaçadas por, entre outros fatores, a crise econômica do estado, as UPPs ainda buscam uma identidade, afirma a economista e antropóloga Leonarda Musumeci. Ela lamenta que a falta de treinamento e a ausência de  definições sobre, por exemplo, o conceito de policiamento de proximidade, tenham ajudado a minar o projeto. Em um dos artigos do livro, ela revela que a maioria dos policiais que atuam em UPPs  gostariam de trocar este trabalho pelo combate nas ruas.  “Eles se sentem como babás das comunidades, como assistentes sociais”, diz.

    A antropóloga e socióloga Barbara Mourão destaca que a cultura do confronto contribuiu para que fosse desperdiçada a possibilidade de um protagonismo feminino nas UPPs, algo que chegou a ser destacado na implantação da primeira dessas unidades.  “Isso foi se esvaziando na medida em que a UPP ia perdendo um pouco de sua característica de polícia de proximidade e reforçando a ideia de polícia de ocupação”, diz. No fim das contas, recuperou-se a imagem de uma polícia mais “masculina”, na pior acepção da palavra, que aposta no confronto.

    A ênfase no combate traz prejuízos para todos, em especial, para quem vive nas favelas, destaca Raul Santiago, do Coletivo Papo Reto, do Complexo do Alemão. Segundo ele, a favela não pode ser vista apenas como foco do problema, mas como espaço de solução. Um caminho que deve incluir uma mudança nos olhares. “Um moleque que fuma um cigarro de maconha na entrada de uma favela é agredido e preso. Numa praia da Zona Sul, o cara leva apenas uma trava da polícia e é liberado”, compara.

    Julita Lemgruber e a diretora da Redes da Maré Eliana Silva

    Julita Lemgruber e a diretora da Redes da Maré, Eliana Silva

     

    Na mesma linha, Eliana Souza Silva, diretora da Redes da Maré, co-autora de artigo sobre o consumo de crack no complexo de favelas, destaca a necessidade de mudança nas abordagens. Frisa que parte significativa da violência nessas comunidades é justificada pela necessidade de combate ao tráfico de drogas.

    Diretor da Open Society na América Latina, Pedro Abramovay vai na mesma linha e lembra do mandato expedido pela Justiça que autorizava buscas em qualquer casa da Maré.  “O medo justifica que se atue contra a Constituição, permite a violação de direitos e as mortes”, cita. Para ele, é fundamental mudar o foco da atuação da polícia. “O mais importante deveria ser evitar as mortes. No Brasil, prende-se uma pessoa com pequena quantidade de drogas e se deixa livre quem mata. Mais de 90% das pessoas que matam permanecem livres, enquanto 60% dos presos por tráfico são primários, sem antecedentes”, critica.

    E por falar em punições, o juiz criminal Rubens Casara diz ser um erro associar segurança a uma questão penal. “Temos que assegurar segurança ao respeito aos direitos primários, o direito à vida, à saúde, à educação. Dizer que isso dificulta o combate à violência representa um risco para a democracia”, frisa.

    Já a socióloga Julita Lemgruber, alerta, num de seus artigos,  para a banalização de prisões provisórias de acusados de tráfico de drogas. Segundo ela, há casos de presos que ficam até sete meses aguardando julgamento. “O tráfico é encarado por muitos juízes como uma espécie de inimigo público número um. Isso faz com que jovens, pegos sem armas, sem a companhia de outras pessoas,  fiquem muito tempo à espera de uma sentença. De um modo geral não são violentos, não são perigosos e acabam presos em nome da ordem pública”, ressalta.

    Escritora e professora de filosofia, Márcia Tiburi não esconde seu pessimismo. Frisa que a palavra democracia tem sido usada para encobertar uma violência no sentido mais estrutural, “de um poder que se confunde com a violência”.  Um poder que, para ela,  implica no cancelamento da relação com o outro.  Um processo que gera no cidadão o medo de ser tanto atacado por quem comete crimes quanto pela própria polícia, que deveria defendê-lo.  “Um modelo (de poder) que chama a polícia quando ele, poder, não existe mais”, conclui.
    * Jornalista e escritor

     

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  • 07
    out
    Projeto #Movimentos produz guia sobre a política de drogas nas favelas

    Diante do fracasso e das consequências trágicas da guerra às drogas – altas taxas de homicídios, aumento da violência e do encarceramento –, o debate sobre política de drogas cada vez mais ganha terreno em todo o mundo. Quando a discussão sobre o tema passa a ser feita pelos jovens das favelas, ganha um peso diferente. Afinal, a juventude das favelas e periferias brasileiras conhece de perto os custos da guerra às drogas e os impactos de uma política repressiva no seu cotidiano.

    Tendo em vista a urgência dessa mudança de paradigma, pesquisadores do CESeC se uniram a um grupo de 20 jovens do Complexo do Alemão, Jacarezinho, Maré, Cidade de Deus e Baixada Fluminense para debater e criar, a partir desses encontros, um guia sobre política de drogas para ser distribuído entre ativistas, militantes e lideranças de favelas interessados no tema. Previsto para circular em 2017, será um material feito por eles para oferecer informações, dados e argumentos sobre os impactos negativos da política de drogas no cotidiano das periferias do país.

    Aristênio Gomes, do Complexo da Maré, diz que existe uma grande produção de conteúdo sobre a política de drogas, mas “nenhuma com a visão de quem realmente é afetado sobre isso”. É exatamente esta a proposta do #Movimentos: pensar ferramentas inovadoras que facilitem a abordagem do tema dentro, para e a partir das favelas. A equipe também pretende preparar vídeos sobre esse tema para divulgar o guia e ampliar a discussão dentro e fora dessas localidades.

    O encontro mais recente aconteceu na sexta-feira (30), no Complexo do Alemão, e reuniu dez jovens, além de Luna Arouca, pesquisadora do CESeC, Raull Santiago, midiativista do Coletivo Papo Reto, e Rebeca Lerer, consultora da campanha Jovem Negro Vivo, da Anistia Internacional. O grupo debateu o conteúdo da cartilha e estratégias de divulgação para a população através de influenciadores locais.

    Para esses jovens, grupos religiosos, culturais, do comércio, da saúde e da sociedade civil das favelas podem ser importantes porta-vozes na conscientização das pessoas para a real necessidade de uma política de drogas diferente no país, como meio eficaz de diminuir a violência gerada pela guerra às drogas nessas localidades.

    Raull Santiago defende que “o principal significado da guerra das drogas está dentro das favelas, na maioria das vezes não inseridas no debate sobre a legalização das drogas feito por agentes de fora das comunidades”. Daí a importância de existir ferramentas pensadas pelos protagonistas desta realidade.

    Ferramenta contra a violência
    O Brasil registrou quase 60 mil homicídios em 2014, segundo o Atlas da Violência – produzido em parceria pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e o Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) – e lidera o ranking mundial em números absolutos. Uma relevante parte desses assassinatos tem relação com a guerra às drogas – seja por conta da repressão policial ao tráfico ou pela disputa por território e pelo mercado ilegal. Dado esse contexto, Luna Arouca reforça que os debates e a criação do material têm como objetivo “encontrar respostas para um problema que está exterminando uma geração de jovens negros nas favelas”.

    Para Rebeca Lerer, é importante que as pessoas compreendam que o problema das drogas vai além das favelas e que o consumo dessas substâncias deixe de ser visto como um desvio de personalidade. “O uso de drogas não define o caráter de ninguém”, ressalta. Segundo Rebeca, a partir do momento em que as pessoas compreenderem que a maior parte da sociedade, a despeito da classe social, usa algum tipo de substância psicoativa em seu dia-a-dia – como álcool, analgésicos, ansiolíticos, açúcar e café –, a discussão sobre política de drogas ganhará mais adeptos e deixará de ser um tabu.

    Para a consultora, o xis da questão do atual problema das drogas está justamente na proibição — daí a ideia da campanha “Da proibição nasce o tráfico”. O grupo argumenta que uma política de drogas repressiva não apenas criminaliza injustamente o usuário de drogas que não apresenta comportamento problemático, como afasta aquele que manifesta dependência dos serviços públicos de saúde e cuidado.

    E, no caso da realidade das favelas e periferias brasileiras, os impactos são ainda maiores: a política de drogas atual encarcera usuários e pequenos traficantes como se fossem grandes barões do tráfico, enquanto extermina uma grande parcela da juventude negra das periferias em nome da proibição. Por esse motivo, a equipe acredita que colocar jovens das favelas e periferias brasileiras no centro do debate é urgente – são eles os principais alvos da violência gerada pela guerra às drogas.

     

     

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  • 06
    out
    Brasil vence Prêmio Latino-Americano de Jornalismo sobre Drogas

    Reportagem da Vice Brasil sobre a pacificação no Complexo do Alemão conquistou o primeiro lugar no Prêmio Latino-Americano de Jornalismo sobre Drogas 2016.

    A premiação jornalística é oferecida pela VI Conferência Latino-Americana sobre Políticas de Drogas, que aconteceu entre os dias 5 e 6 de outubro, em Santo Domingo, na República Dominicana. Os pesquisadores Luna Arouca e Raull Santiago (na foto de camisa vermelha), do CESeC, estão no país representando a instituição.

    Outras duas reportagens produzidas pelo veículo, e que tratam na questão das drogas no Brasil, ficaram com o segundo lugar e com uma menção honrosa na premiação. Confira o resultado: https://goo.gl/rq71PN

     

    Foto/crédito: Vice Brasil

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  • 04
    out
    ‘Fundação do Brasil é ancorada na desigualdade, violência e discriminação’, afirma Atila Roque

    Para Atila Roque, diretor-executivo da Anistia Internacional Brasil e membro do Conselho Consultivo do CESeC, existe um déficit histórico estrutural de direitos no Brasil que não pode ser resolvidos num passe de mágica. Ele será o novo diretor da Fundação Ford no país, a partir de janeiro de 2017.

    Atila Roque alerta para o retrocesso na conquista dos direitos no país e enxerga que os jovens podem ter um papel fundamental nas mudanças positivas deste cenário. O ativista reforça a necessidade pela busca de um pacto contra a violência.

    Leia a entrevista que ele concedeu à ÉPOCA Negócios: https://goo.gl/ofRN5Z

     

    Foto/crédito: AF Rodrigues/Divulgação

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